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Será que vale à pena trazer o Sítio do Picapau Amarelo de volta?

Sítio do Pica-Pau Amarelo' vai virar filme em 2019 - Emais - Estadão

Acabo de ver a notícia de que o Sítio do Picapau Amarelo ganhará mais uma adaptação cinematográfica em live action. A obra tem previsão de lançamento para 2022 e é intitulada "De Volta ao Sítio do Picapau Amarelo"...mas será que vale à pena voltar?

Logo no inicio do primeiro livro da série, o "Reinações de Narizinho", Lobato apresenta cada um dos moradores do Sítio. Dona Benta é "a mais feliz das vovós" e Nastácia é referida como sua "negra de estimação", que carregou a neta da patroa no colo.

Em outra ocasião, no livro "Caçadas de Pedrinho", o escritor caracteriza a cozinheira como "macaca de carvão", em mais uma tentativa de desumanização. Me pergunto se é mesmo interessante trazer essa história  que envelheceu tão mal  à tona novamente. Nastácia ainda se refere a Dona Benta como "sinhá".
Relembre as versão de "Sítio do Picapau Amarelo" para a TV | Sítio ...

Em todas as adaptações recentes, a maioria dos termos racistas foi removida. Mas e o contexto? Que mensagem passamos retratando histórias onde os negros apenas ocupam o papel de servidão? Sempre me perguntei qual a história de Nastácia, se ela tinha a própria família ou apenas vivia para desempenhar o papel esteriotipado de "mammy", a doméstica nata que existe para cuidar da família da "sinhá". Tio Barnabé passava por situação semelhante.

STF retoma discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato ...A obra criada por Monteiro Lobato não é apenas reprodução do cenário em que vivia, mas fruto de sua índole duvidosa. Em 2011, uma carta escrita pelo autor veio à público, onde lamentava que aqui no Brasil não houvesse uma Ku Klux Klan para, segundo ele, "colocar o negro em seu lugar".

Lobato era assumidamente eugenista, crendo numa "pureza racial", a mesma ideologia que culminou no Holocausto. No livro "Urupês", de 1918, ele disse "o caboclo é o sombrio urupê de pau podre", condenando a miscigenação, o que voltaria a fazer por diversas vezes.

Sua obra era claramente uma ferramenta de disseminação dessas ideias, "O Presidente Negro" é outro exemplo. Monteiro tentou emplacar este livro no mercado norte-americano...e até mesmo os editores estadunidenses consideraram racista e segregador (isso vindo de um dos países mais racistas e segregadores do mundo).

Em carta escrita ao amigo Godofredo Rangel, Lobato lamentou o fracasso nos Estados Unidos : "Errei vindo cá tão tarde. Devia ter vindo no tempo em que linchavam os negros".

Põster de De Volta ao Sítio do Picapau AmareloA esperança quanto a "De Volta ao Sítio do Picapau Amarelo" é a presença de Jim Anotsu como roteirista. Ter um homem negro por trás da adaptação de uma obra como essa é extremamente importante para que os ideias racistas de Monteiro Lobato não se perpetuem.

Na minha opinião, uma solução eficaz seria que a história fosse centrada em uma família negra, deixando as características do período colonial para trás.

O filme apresentará uma aventura inédita e também promete inserir novos personagens à história, o que poderá aumentar a representatividade no projeto. Resta esperar e torcer para que apenas o folclore e a vida no campo sejam mantidos como na obra original. 

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