09 abril 2019

Entrevista: Cineasta Sérgio Machado

Foto: Larissa Valle


Sérgio Machado é um renomado cineasta baiano que esteve envolvido em projetos cinematográficos como "Central do Brasil", "Quincas Berro D'água" e "Cidade Baixa". Recém chegado de uma maratona de viagens internacionais para a gravação da série "Irmãos Freitas" (do canal Space), ele refletiu conosco sobre sua história na sétima arte. 

No inicio da sua trajetória, você fez um intercâmbio estudantil pra Índia. Olhando em retrospecto, qual a importância dele para sua carreira?
Pra minha vida foi enorme. Foi a melhor viagem que já fiz, nunca gostei tanto de um lugar. Me encantei com a delicadeza das pessoas, a beleza das paisagens e a espiritualidade. Juntamos um grupo muito divertido e viajamos durante um mês, mas não esqueço de nada. Foi uma viagem transformadora  e saí dela com um curta chamado "Três Canções Indianas".

Você cursou jornalismo, mas acabou seguindo carreira no cinema. Quais caminhos te levaram pra sétima arte?
Eu fui uma pessoa que não tive crise vocacional. Quando criança, queria ser jogador de futebol, adolescente já queria fazer cinema. Sempre fui apaixonado pela área. Tentei mapear na Bahia o que seria mais próximo de uma faculdade de cinema e o que pareceu mais parente foi o curso de comunicação, mas eu era basicamente aquele aluno que todos sabiam que queria cinema. Sempre fui focado, nunca tive dúvidas.


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Sérgio na companhia de Jorge Amado
Qual o papel de Jorge Amado na sua história?
Fiz um curta pra faculdade, "Troca de Cabeças". Era ousado porque não tinha orçamento. A gente vendia camisa, fazia festa pra arrecadar dinheiro e aí produzimos esse filme e ele virou, de alguma maneira, cult em salvador. Do nada, recebi uma ligação do Jorge Amado. Me disse que gostou muito e se ofereceu para me ajudar na carreira. Perguntou o que eu queria e eu respondi que ter conhecido ele e recebido seu incentivo já era ajuda o suficiente. Isso aconteceu nos anos Collor, quando a produção de cinema no Brasil não existia e eu não tinha perspectiva alguma. Jorge me pediu uma cópia do filme e não imaginei que daria em alguma coisa, mas ele enviou esse vídeo sem me avisar pro Walter Salles. Waltinho viu, gostou e me chamou. Nos aproximamos quando ele estava começando o processo de produção de "Central do Brasil" . Então fiz elenco, fiz locação, assistente de direção, fui colaborador muito próximo. Assim, criamos uma relação que perdura até hoje. Estamos fazendo um desenho animado, uma ficção...Tanto eu trabalho nos projetos dele quanto ele produz nos meus. Tudo à partir da intervenção do Jorge Amado. Por conta disso, meu filho se chama Jorge e o Walter é o padrinho.


"Central do Brasil" é um filme de reconhecimento universal. Como esse trabalho foi encarado por você na época e como o vê hoje?
Foi meu primeiro trabalho. Eu dei a sorte de ter pisado num set de filmagem pela primeira para ver Fernanda Montenegro e Marília Pêra contracenando. Na época, não tinha dimensão do que era aquilo nem sabia o tamanho do privilégio, mas acho que fui a primeira pessoa que, ao ver o filme, disse que ele iria muito longe. O pessoal achava que era delírio porque eu era novo, mas eu dizia "Esse filme vai arrebentar, ganhar o mundo". Eu percebia que ali estava sendo feito algo muito especial.

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Fernanda Montenegro e Marília Pêra em "Central do Brasil"


Qual a sua opinião sobre o atual cenário do cinema baiano?
Está num lugar melhor do que já esteve, tem muitas pessoas novas fazendo, mas ainda é pouco pro tamanho da Bahia. Agora, temos uma escola de cinema (algo que não tinha quando comecei), um cenário melhor que o anterior, mas ainda assim muito pouco pro potencial do estado. Infelizmente, até hoje não vi um momento em que algum governante se atentasse para a importância e o potencial absurdo que tem a cultura baiana.

Roteirizar um filme biográfico como "Madame Satã" é mais difícil que um completamente ficcional?
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Lázaro Ramos como Madame Satã
Cada um tem suas dificuldades. A coisa do filme biográfico é que você tem que esquecer que é uma biografia e tratar como uma ficção. Acabei de fazer a série do Popó. Pior né, porque Madame Satã estava morto, Popó acompanhava as gravações. A primeira coisa que a gente fez foi deixar claro que é uma ficção, uma história de dramaturgia onde temos que exagerar em algumas coisas, omitir outras. Claro, sempre respeitando o espírito da pessoa, não vai fazer um cara liberal virar um fascista, mas acho que isso vale tanto pra biografia quanto adaptação literária. O que serve do livro para contar a historia se conta e o que não serve, abre-se mão.


Qual a influência que o estado em que você nasceu exerce no seu trabalho?
Total. Me sinto muito á vontade filmando na Bahia. É o único lugar do mundo onde eu sei como as pessoas falam, entendo a alma baiana como nenhuma outra. Por exemplo, meu próximo filme vai ser na Amazônia, então é completamente diferente da minha realidade. Vou pra lá me embrenhar na floresta, entender o linguajar das pessoas e filmar numa terra estrangeira. Na Bahia, eu filmo dentro de casa. Faz bastante tempo que saí porque não é fácil viver de cinema aqui, então fui morar primeiro no rio, depois em são paulo, mas estou sempre voltando. Faço questão de escrever todos os meus roteiros aqui e posso até ficar longe da Bahia, mas ela está sempre perto de mim.

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