07 junho 2014

Confissões de Adolescente - O Aborto

 

 Movida por este turbilhão de sentimentos e informações,um dia a camisinha estourou e eu engravidei. Peguei o exame e fui pra casa. Pensando: tá tudo bem...é normal. Imagina quem passa por isso e não tem o pai que eu tenho. Papai é muito vivido e compreensivo. E também eu fiz tudo certo,arrumei um namorado fixo como ele pediu. Ele gosta do meu namorado. Tá tudo bem. Eu vou contar logo,pra ver o que a gente faz. Que chato!

 — Tudo bem,filha? Dia dificil hoje. Como é que você está?
 — Queria te dizer uma coisa,pai,mas tô encabulada de falar.
 — Fala.
 — Tô gravida. Fiz o teste hoje e deu positivo.

 Silêncio.
 — Quando você fez o teste?
 — Ontem. Saí do colégio mais cedo,peguei dinheiro na sua gaveta e fui fazer o teste. O resultado veio hoje.

 Silêncio.
 — Sua débil mental! Idiota! Débil mental! A unica coisa que eu te pedi pra não fazer! Idiota! Você sabe o que é um aborto? Hospital,anestesia geral? Vou telefonar pro médico agora,marcar pra amanhã...fazer logo esta porra. Como é mesmo o nome daquela merda,daquela porra daquele ginecologista?
 — Desculpe...desculpe...eu não sabia.
 — Não sabia o que? Irresponsável...débil mental! Irresponsável,feito sua mãe. Alô...,merda,não tem ninguém mais no consultório,amanhã de manhã telefono.
 — Desculpa pai.
 — Não fala comigo.
 — A camisinha estourou,pai,eu não sabia.(Chorando.) Tô começando,pô! Não sabia que camisinha estourava.
 — Não sabia que camisinha estourava... Quem não sabe que camisinha estoura? É a mesma coisa que não saber que carro atropela.
 — Desculpa.

 Silêncio maior. Ele se acalma.
 — Desculpa você,filha. O seu problema é maior que o meu e eu fico gritando. Fiquei estérico,você há de convir que não é pra menos. Desculpa,eu não devia ter gritado,tenho que estar ao seu lado numa hora dessas. Não é nada demais,a gente resolve.
 — Desculpo não.
 — O que?
 — Eu estou nervosa,estou com medo e você fica gritando comigo? (Chorando cada vez mais.)

 Sai e se tranca no quarto batendo a porta.
 — Filga,filha,abre a porta. Filha,desculpe. Você sabe como eu tenho horror de doença,de hospital,você sabe como eu fico histérico quando você tem febre de 37 e meio! Abre,filha,pra gente conversar.
 — Não quero conversar.
 — Mas a  gente precisa. Você quer ter esse filho?
 — Não. Quero ficar sozinha.
 — Abre,filha,abre,não briga comigo. Você sabe como eu fico quando você briga comigo. Desculpa,mas o que eu posso fazer a não ser pedir desculpas?

 Silêncio do outro lado da porta. Depois de algum tempo,ele desiste e fica vagando pela casa.


Texto por : Maria Mariana

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