29 maio 2014

Confissões de Adolescente - A Primeira Vez Que Fumei Maconha

  Presente de aniversario,enrolado numa fitinha vermelha,dentro de um envelope. Ganhei de um dos meus amigos cabeludos,aquele tipo que mora no Baixo Gávea. Na hora , com toda aquela minha paranoia de careta,pensei: "Esse cara deve achar que eu tenho cara de doidona."
 Foi dentro de casa,sozinha,tudo escuro,olhando o mar. Muita tosse,garganta quente,cheiro bom,tomei água! Segura a respiração,boca seca,o mar tá bonito...tô me sentindo esquisita,formigando,vou tomar água de novo. Descobri que as Ilhas Cagarras parecem dois seios disformes. Pensei em sexo,violeta,chocolate,exótico. Pensei em erotismo. Nunca pensei que o mar pudesse fazer com que eu me sentisse tão gostosa. Ihhhhh! Vou tomar banho. Nunca imaginei que o banheiro fosse tão longe. Caramelo,sorvete de chocolate com calda. O telefone toca...saio correndo. Fudeu: é minha mãe! Não vou conseguir  falar,não me sinto capaz de conversar,ainda mais com minha mãe! Enrolei uma toalha na cabeça e outra no corpo. Atendi o telefone. Alô? Era a Ana.
 
 Tô indo para o ensaio,quer uma carona?
— Quero sim,claro. Obrigada por ter me ligado. Pegar um ônibus agora ia ser o fim. Mas você é minha 
amiga,não ia me deixar na mão. Obrigada. (ihhhh,tô falando demais!)
— Tô passando daqui a dez minutos,fica no calçadão da praia.

 Ai meu Deus! Correr agora vai ser impossível. Pessoas como eu não podem fumar maconha,eu já sou lerda
,se continuar vou virar uma ameba.

 A casa escura,nem olhei no espelho e desci cheia de coisas na mão. Marshmellow,banana caramelada,ai que vontade! Atravessei a primeira rua. As pessoas pareciam sorrir par mim,a cada minuto. Só assim doidona é que eu fui descobrir como ser humano é belo,e até o mais triste deles pode abrir um sorriso no meio da rua pra você. Atravessando a segunda rua,descobri que a simpatia do ser humano se tornara uma coisa obsessiva. Toda e qualquer pessoa que passava me olhava e parecia rir um pouco mais que sua simpatia natural. De repente tudo virou uma paranóia só. Carros buzinavam e um homem soltou uma gargalhada enorme. Tudo era tão leno e tão rápido. Parada no calçadão da praia,de mochila e botinha,meu corpo começou a gelar. Fui pegando no meu corpo lentamente,com medo de chegar à cabeça. Lá estava ela,verde-água,cafona,enrolada no meu cabelo.

 Nesta hora tive a completa noção da realidade. Uma menina ridicula,doida,sozinha,de toalha verde-água enrolada na cabeça. Respirei fundo,e resolvi agir como se nada tivesse acontecido. Muito lentamente na maior pose,eu fui voltando para casa,pensando assim: "Quem sabe eles não acham que é do modelo? Tem tanta gente cafona no mundo!" e desta vez os seres humanos pareciam sacanas e irônicos. Cheguei em casa (ufa!) e dei de cara com o porteiro:

— Seu Aroldo,como é que o senhor não me avisa que eu desci com uma toalha enrolada na cabeça?
 Ué,dona Ingrid,como é que eu vou imaginar que não é da sua roupa,né?

 Ele era cafona. Cheguei em casa,muito séria,muito deprimida. Tirei a toalha ,pedindo a Deus que isso tudo fosse só uma dessas "ondas" do baseado. Essa realidade provocou gargalhadas gerais em muitas rodas de amigos e um bilhete da mamãe,que não imaginava haver um baseado no meio disso tudo.

 "Filha,você me preocupa. Alguém que no seu perfeito estado sai de casa  com uma toalha na cabeça não tem condições de atravessar a rua. Nem andar sozinha. Você me preocupa. Realmente. Precisamos conversar. Sua mãe."


 Livro: Confissões de Adolescente

 Texto de: Ingrid Guimarães

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